Sexta-feira, 21 de Julho de 2017
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Ao Toque do Cornetim

A festa brava é rica em cores movimentos e toques. Pormenores de muita importância que vale a pena conhecer como o cornetim.
16 de Março de 2011 - 22:52h Entrevista por: - Fonte: - Visto: 3149
Ao Toque do Cornetim

Começou por querer ser toureiro, mas acabou por ser o mais conhecido Cornetim Tauromáquico Português. Até hoje foi o único internacional dentro da sua modalidade a actuar na Monumental de Barcelona numa Corrida de Gala à Antiga Portuguesa. Completa esta temporada no dia 3 de Junho 40 anos como Cornetim Tauromáquico do Campo Pequeno. Ao toque do cornetim de José Henriques vamos iniciar a função.

Taurodromo.com: Como surgiu o gosto e aprendeu esta arte?

José Henriques: O meu pai era cornetim, desde pequeno comecei a acompanhá-lo nas corridas e comecei a apaixonar-me pela festa. Curiosamente nunca pensei ser cornetim pois a minha ilusão era ser toureiro. Ainda andei numa escola em que o professor era o bandarilheiro Abel Cascão e o senhor Ernesto Costa. Com poucas aulas, numa brincadeira de carnaval, fomos levados para antiga praça de Cascais para tourear. Levei o capote, consegui ainda dar umas gaoneras. O Guilherme Pereira que já faleceu era o bandarilheiro de serviço. Chegou ao pé de mim com um par de bandarilhas e disse: vai bandarilhar este bezerro! É claro que levei uma tareia. Não consegui vencer o medo. A partir daqui pedi ao meu pai para me ensinar a tocar cornetim. Mais maduro, comecei a substituir o meu pai quando ele tinha mais que uma corrida no mesmo dia.Em 1971 devido a motivos de saúde do meu colega Carriço abriu um concurso para cornetim no Campo Pequeno altura em que o senhor Manuel dos Santos era o empresário. Lembro-me que fomos 5 elementos a concurso. Fizemos os exames individualSente. No final, chegaram ao pé de mim e disseram-me "você fica e faz já a primeira corrida nocturna" que foi no dia 3 de Junho. Este ano completo 40 anos de entrada na praça de toiros do campo pequeno. Até hoje fiz todas as corridas da Monumental de Lisboa.

Taurodromo.com: Que papel desempenha o Cornetim Tauromáquico?

José Henriques: É um transmissor das ordens do director de corrida. Quer para os artistas, quer para o público em geral. Cada toque tem a sua função. Temos duas classes de toques: Os toques à portuguesa para a lide, a cavalo e, os chamados toques à espanhola para a lide a pé. Numa corrida de seis toiros se não houver muitas repetições e avisos o normal é fazer 32 toques. Os toques são: a entrada do cavaleiro, o toque para o toiro, os avisos ao cavaleiro e a retirada do cavaleiro, o toque para a pega depois o toque para a recolha do toiro. Na parte a pé, toca-se logo para a saída do toiro. Depois do toiro sair dos curros e entrar na arena é aí que o matador sai do burladero e começa a tourear, vem a mudança para o tercio das bandarilhas. A pedido do matador toca-se novamente para mudança de tercio, isto é, para a muleta. Assim que o matador simula a estocada toca-se a cabrestos para recolher o toiro.

Taurodromo.com: Até hoje quais foram os prémios que mais o marcaram?

José Henriques: Tenho muitos prémios; 4 deles são muito especiais porque são personalizados. O prémio que me foi entregue pela Junta de Freguesia de Abiul o ano passado quando fiz 10 anos de actuações naquela praça, tenho também um troféu que em 2007 foi me atribuido pelo grupo de forcados de Vila Franca de Xira. O Latiníssimo de Santarém e o prémio da Tertúlia Tauromáquica Sobralense. Todos eles têm o seu valor e significado pelas corridas que fiz e que muito me envaidecem.

Taurodromo.com: Quantas corridas faz por temporada?

José Henriques: Varia. Em 2007 foi o ano que até hoje consegui fazer mais corridas, em que encerrei com 102 espectáculos, em 2008, fiz 92 corridas, em 2009, 93, e 2010 101 corridas.

Taurodromo.com: Actualmente há muitos jovens a aprender a tocar cornetim?

José Henriques: Não. Por vezes quando tenho mais que uma corrida tenho dificuldade em arranjar alguém para me substituir. Tenho 2 ou 3 colegas que preenchem as corridas às quais não posso comparecer por coincidirem com outras anteriormente agendadas. Os jovens hoje não querem este sacrifício; não há fins-de-semana, não há férias, são muitas horas na estrada.

Taurodromo.com: Noutros tempos quais eram as suas referências do toureio?

José Henriques: O homem que preencheu a tauromaquia doutros tempos foi João Branco Núncio. Luís Miguel da Veiga e o Mestre Baptista também foram duas figuras importantes do toureio que me marcaram. Actualmente gosto muito do João Salgueiro que é um toureiro de arte e emoção. A nível internacional e também nacional não podemos esquecer o João Moura. No toureio a pé as minhas grandes referências a nível nacional e internacional foram Manuel dos Santos e Vítor Mendes, indiscutivelmente.

Taurodromo.com: Em 40 anos de cornetim tauromáquico tem muitas histórias para contar?

José Henriques: Felizmente tenho mais histórias bonitas do que episódios tristes. Desde 1971 até hoje fui o único internacional dentro da minha modalidade a actuar na Monumental de Barcelona numa corrida de Gala à Antiga Portuguesa. Vi as maiores figuras de Espanha, tais como Curro Romero, Antoñete, António Bienvenida, Chamaco, Paco Ojeda e obviamente as maiores figuras de Portugal que todos sabem quem foram quem são e que passaram pela arena do Campo Pequeno. Corridas que me ficaram na memória... a despedida de Diamantino Viseu, uma corrida com o Álvarito Domecq e os irmãos Peralta, a corrida da comemoração dos 50 anos de alternativa de Branco Núncio e mais recentemente a alternativa do jovem Manuel Telles. Mas também vi algumas tragédias apesar de não gostarmos até porque conhecemos os toureiros e choca-nos.É muito triste. Foi a colhida mortal de Varela Crujo no Campo Pequeno, outra colhida que me impressionou bastante foi a do Pitó na Arruda dos Vinhos. A última coisa que ele ouviu na vida dele foi o meu toque para a pega.

Taurodromo.com: Actualmente como vê o actual estado da festa de toiros?

José Henriques: Julgo que o número de corridas é muito bom. Não noto diferença que haja menos espectáculos e as corridas têm bastante público e casas cada vez mais cheias. O campo pequeno sem dúvida que é recordista em casas cheias e aceitáveis. Não há razões para termos receios acerca da continuidade da festa brava. A festa só acaba se as pessoas deixarem de ir aos toiros. Como isso não acontece, a festa está de muito boa saúde.

Toque a recolher....

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