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Belador, o (e não um) Toiro Indultado em Madrid

O famoso Victorino Martin toureado por Ortega Cano no dia 19 de Julho de 1982
18 de Novembro de 2011 - 20:16h Pensamento por: - Fonte: - Visto: 1830
Belador, o (e não um) Toiro Indultado em Madrid

        José Ortega Cano. Não há aficionado à festa brava que não lhe seja familiar este nome. Hoje anda “nas bocas do mundo” devido a um trágico acidente de viação do qual se salvou por milagre, mas onde desgraçadamente pôs fim à vida do condutor do automóvel com o qual colidiu de frente. Esperamos que o seu estado de saúde volte a ser o que era antes e que se ponha de acordo com a família do falecido o mais rapidamente possível porque todos queremos recorda-lo como uma grande figura do toureio, e não por outras razões menos felizes. Um apaixonado do toiro bravo, amante do campo e do toureio de verdade, Ortega Cano não se conformava com orelhas e portas grandes, queria mais do que isso, queria a cada tarde escrever história, mas história pintada de verdade, com faenas espontâneas, carregadas de valor e sentimento.

        Dizem os livros de História que o toureio de Ortega Cano tinha como bases fundamentais o valor, o temple e “el mando”, tendo-se assentado nestes três pilares para se tornar numa das máximas figuras dos anos 80, época em que a afición e a forma de tourear sofreram enormes mudanças. Já iam longe os tempos em que se perdoava o toureiro quando este errava ou quando deixava um toiro “em meio de lidar”. Por estas datas, aquele que se vestia de luces estava obrigado a dar o máximo em cada série e a tentar por todos os meios agradar aos tendidos. Os matadores cada vez encurtavam mais as distâncias, cada vez “podiam” com mais toiros e cada vez conduziam melhor as investidas dos seus oponentes. Aqueles que mais se aproximaram deste “corte” chegaram facilmente a figuras do toureio e um deles foi, sem dúvida, José Ortega Cano.      

 
        Foram inúmeras as faenas deste murciano que roçaram a perfeição, sobretudo em Madrid, praça onde a afición lhe tinha um carinho especial, mas há uma delas que foi certamente o expoente máximo da sua carreira: a do dia 19 de Julho de 1982. Nessa tarde aguardava nos currais de Las Ventas um curro de toiros de uma ganadaria que, também ela, é hoje em dia sobejamente conhecida pelos aficionados. Os toiros dessa corrida carregavam sobre os aprumos muito mais do que quilos, carregavam imenso esforço, empenho, paixão e conhecimento de um ganadeiro: D. Victorino Martin.

        Produtor de bovinos de carne e um enorme aficionado desde que se conhece a si mesmo, D. Victorino Martin compra o seu primeiro lote de vacas bravas, a preço de abate em matadouro, no ano de 1960. Porquê a preço de matadouro? Porque a festa estava em mudança e o toiro que se procurava era o que servisse para o estilo de toureio de Ortega Cano, por exemplo. E que tipo de toiro é este? Um toiro mais cómodo, mais nobre, mais toureavel e menos agressivo, com menos cara, com menos tamanho e com menos casta. E o que eram os toiros ancestrais de Victorino Martin? Todo o contrário! Eram toiros grandes, com cara, agressivos, encastados e exigentes.

        Desta forma D. Victorino Martin, um amante da pureza e da verdade do toureio, remou contra a maré e apostou por um encaste que se ia perder: os famosos “Saltillo x Santa Coloma”. Muitos lhe chamaram louco nessa época mas a verdade é que o conceito de toiro que este ganadeiro levava na cabeça foi-se impondo, ganhou o seu terreno e no dia 19 de Julho de 1982, vinte e dois anos depois de se formar a ganadaria, ai estavam os toiros marcados com o ferro de Victorino Martin nos currais de Las Ventas.

        A Ortega Cano saiu-lhe no sorteio um cardeno a “puxar” para o negro, marcado com o número 121. Pesou na balança 540kg e, nesse dia, chamava-se Belador já há quatro anos e seis meses. Em praça, Belador foi todo um “Victorino Martin” e Ortega Cano foi todo ele o “Ortega Cano” dos seus melhores tempos de toureiro. Tentar adjectivar a forma como Ortega Cano toureou Belador, será tão difícil como enunciar as razões que levaram os espectadores a pedirem o indulto no final da faena. O verídico foi que a petição foi de tal maneira efusiva que esta foi a única vez que nesta praça se mostrou o memorável lenço laranja.

        Belador, que transbordou bravura durante toda a faena, abriu assim pela primeira e única vez as portas dos currais de Las Ventas. Ortega Cano, que esteve firme e templado como nunca, viveu a tarde mais importante da sua carreira de toureiro. A fria afición de Madrid, esqueceu por momentos a sua impiedosa exigência e pediu com força o indulto. Muito se contestou este acontecimento, inúmeros são os que afirmam que por Madrid já têm passado toiros mais bravos que Belador e que outras faenas houve de dimensões superiores a esta. Será tudo isto verdade, mas o certo é que esta lide levou os aficionados de Madrid a um tal estado de êxtase que ninguém foi capaz de deixar de pedir que a vida de Belador fosse perdoada. A petição de um indulto é muito mais do que bravura, forma de investir, puyazos, muletazos e toureio; a petição de um indulto é a emoção dos aficionados! E se o bonito de uma faena é que o aficionado com ela se emocione, se esse toiro levou o aficionado a um estado de emoção tal que se vê obrigado a pedir o indulto, então esse toiro é perfeito e merece continuar a viver!      

        Belador, fosse ou não o toiro mais bravo que passou por Las Ventas, foi o único que levou a emoção dos aficionados dessa praça ao limite e, como tal, teve a oportunidade de ganhar a vida. Voltou para o campo e viveu como um rei junto às vacas bravas até morrer de velho. Deixou inúmeros descendentes e contribuiu certamente para levar a ganadaria de Victorino Martin a ser o que é hoje. O seu nome, a sua história e a sua genética imortalizaram-se no tempo, mas D. Victorino Martin quis imortalizar também o seu majestoso corpo e embalsamou-o inteiro, desde o focinho até às cerdas do rabo, e colocou-o bem no centro do seu espectacular museu, rodeado de troféus, prémios e cartéis históricos.

        E tudo isto, ganhou Belador, única e exclusivamente por pertencer a essa maravilhosa e tão singular como peculiar raça bovina que é o Toiro de Lide. Foi um animal que instintivamente fez o que de melhor se lhe pedia, entregou-se ao máximo em prol do seu encaste e, sem o saber, proporcionou a milhares de aficionados uma das tardes mais bonitas das suas vidas. Tudo isto por ser bravo, tudo isto por ter tido a sorte de ser toureado por Ortega Cano e tudo isto por haver nas bancadas gente com uma tal sensibilidade para com os animais que não hesitou em pedir com força que Belador continuasse a viver!

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