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Remate Condigno

Realizou-se em Abiul na noite de 14, com grande entrada de público, a já tradicional nocturna de encerramento da feira taurina.
19 de Agosto de 2013 - 12:53h Pensamento por: - Fonte: Taurodromo.com - Visto: 1200
Remate Condigno

Realizou-se em Abiul na noite de 14, com grande entrada de público, a já tradicional nocturna de encerramento da feira taurina.

Abriu praça Rui Salvador, de novo na quadra com um cavalo, ferro Paim, que pode vir a fazer a diferença, assim haja sorte repartida em termos do seu futuro, o que o seu actual dono amplamente justifica.

O de Tomar “bailou com as mais feias”, dois toiros de tábuas que pediram – e tiveram! – ferros em sortes sesgadas, faltando nas reuniões e obrigando a passagens em falso, que sempre ensinam quem, na circunstância , já sabia defender-se bem demais.

Fechou praça João Moura, filho, que exibiu uma quadra, toda ela, domada naturalmente e sempre conduzida, de forma exclusiva, com a mão esquerda, a das rédeas – aspectos esses que, obviamente, lhe devem ser creditados e que, gostosamente, aqui se salientam e aplaudem.

Porém, quanto à vertente taurina propriamente dita, não gostámos das prestações do jovem cavaleiro. Isto se diz por isso que ambas as lides assentaram no recurso às cambiadas, em detrimento do toureio fundamental que, por esse facto, deve ser prioritariamente praticado.

As cambiadas têm sido, ao longo da História da Tauromaquia, sistemática e severamente censuradas pelos grandes teorizadores da especialidade, atitude essa que chegou inclusive aos nossos dias, sem razões válidas para assim deixar de ser.

Na base de um tal distanciamento estão considerações, a um tempo, éticas e técnicas.

Quanto ás primeiras, se o irracional deve ter por si, disponibilizadas pelo Homem, o máximo de vantagens para poder competir com o ser, (ao menos em teoria) pensante, que é o toureiro, pois só assim se observará a ideia repetida até à exaustão do respeito pelo toiro, tal não acontece quando a viagem do artista rumo ao adversário assenta num sofisma, num engano, de aparentar ao oponente que reunirá num dado ponto e fazendo que ele para lá se encaminhe, para, a breve trecho, como em alguns acidentes de viação, inflectir o sentido da sua marcha e assim consumar com o adversário em desvantagem, desequilibrado por acção do homem que o cavaleiro é, inferioridade essa decorrente de demora na recuperação e reposicionamento do seu estado anterior, sem que lhe pertença, a ele, hastado, a paternidade da mentira a que foi atraído.

No que tange às segundas, saliente-se que, nas cambiadas, a reunião nem sempre se concretiza, por faltar toiro para isso ou, quando não, ela acontece em condições desiguais, inversamente ao que sucede na sua ausência, com o morlaco a acudir rectamente ao encontro com o conjunto ou, por ser tardo, ignorando o cite, esperando que o cavaleiro tome a iniciativa de o atacar, mas, em qualquer dos casos, não correndo o risco de desvios de trajectória que são fatais e caracterizadores da sorte ora em discussão.

Cambiadas essas que, nem por isso, devem ser objecto de banimento do reportório dos artistas, antes, sim, remetidas para um lugar condizente com o seu estatuto de subalternidade artística. De facto,

às cambiadas sobra-lhes em beleza e espectacularidade o que mingua em sede de verdade tauromáquica.

No toureio, entre os frequentadores dos respectivos espectáculos, há espectadores e aficionados, com aqueles a divertirem-se e estes a emocionarem-se.

Por assim ser e direccionados aos primeiros, duma perspectiva taurina, existem também os adornos, terminologia específica essa englobadora dos pares de bandarilhas, das sortes de violino, dos ferros de palmo, hoje, com rosas, mas ainda sem cravos e onde se pode inserir também, por remissão, as ditas cambiadas, deste modo com utilização circunscrita ao final das lides, após se ter toureado a sério, de acordo com as regras de há muito vigentes em tão interessante manifestação artística.

Como segundo elemento da terna, por definição, no meio dos alternantes mencionados e, nesse lugar, residindo a virtude, mesmo que vestida com as roupagens taurinas …, exibiu-se, a grande altura e, como tal, arrecadando o prémio em disputa, Luís Rouxinol, de há muito epitetado, também por nós, de ginete de regularidade alta.

O de Pegões está em grande forma, senhor de uma quadra invejável, quiçá invejada e maduro pelo longo período que já leva de contacto com as arenas.

A brega foi de luxo, quer com o Ulisses, não obstante o percalço sofrido, quer com a Viajante.

Este último animal, do melhor que, presentemente, aparece nas arenas, merecia ter pela frente – e assim foi, de facto, no tal quinto que não pode ser mau… - um oponente que se arrancasse sem cerimónias, o que lhe permitiu luzir sobremaneira as suas extraordinárias aptidões.

Contra, na globalidade das duas actuações meritórias, não se esgrima com o que se passou de forma inusitada, por não habitual, em dois pares de bandarilhas, pela natureza acessória associável a uma tal sorte.

Acresce não ser Rouxinol conhecido por impor ou rejeitar ganadarias e alternantes.

Como filho do Povo que é e assim se apresenta, com a pureza própria daquele estrato social, o cavaleiro fez jus ao respeito e admiração dos amantes do bom toureio, ainda que tal não ocorra com os genuínos anacletos e com os demais que se comportam como tal.

Nuno Marques, cabo dos Amadores da Chamusca, em acto de despedida da afición Abiulense, venceu o prémio em disputa, de que deveria haver segundo exemplar, pois os triunfadores, no plural, podem sê-lo ex aequo, o que sucedeu no caso concreto, com Henrique Ferreira, do grupo de Santarém, a protagonizar outrossim uma grande pega, algum tempo, sozinho e depois de duas anteriores tentativas que não puderam passar sem deixar as suas marcas, quer no corpo, quer no espírito do jovem e valoroso moço de forcado.

Bela noite de toiros, esta, como remate condigno de uma Feira com muito para recordar e em que a Junta de Freguesia de Abiul, empresária daquela, bem merece, estando já a receber, os aplausos devidos pelos espectáculos que montou e pelos resultados a todos os níveis criteriosamente conseguidos.

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