Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
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"A Banda de lá, a de cá... e as outras"

Mais um artigo de Jesus Lourenço... na rubrica "pensamentos da semana".
09 de Julho de 2013 - 22:25h Pensamento por: - Fonte: - Visto: 1342

Foi trágica as notícias que recebemos nestes últimos dias, primeiro a inesperada fatalidade que tocara ao jovem cabo de forcados do “Grupo de Montemor”, José Maria Cortes; depois teve lugar o que todos nós mais receara-mos, a chegada da sua derradeira hora! Cabra de vida.

Tinha eu já enviado para o portal www.taurodromo.com um artigo para a rubrica “Pensamentos da Semana” como aliás, tenho vindo a fazer com alguma regularidade desde Janeiro último quando, a propósito dos referidos acontecimentos, resolvi-me em completa solidariedade à memória do jovem forcado, do seu pai, meu grande e velho Amigo João Cortes, à restante família e, naturalmente ao próprio grupo e então, pedir para que o artigo em causa fosse reservado até nova oportunidade.

Abordava eu, naquelas minhas considerações algo muito subtil, sobre a corrida de touros do passado dia 20 na Monumental do Campo Pequeno” ainda assim, citava a excelência do curro de touros enviados da ganadaria “António Silva”, as atuações dos cavaleiros de turno dessa noite eram igualmente recordadas embora, deixasse com alguma clareza transparecer quanto me há impressionado a disponibilidade, discernimento, leitura e capacidade do único cavaleiro praticante englobado no cartel em frente, ao também único touro verdadeiramente manso a ostentar o conhecido ferro!

Todavia, o sentido primordial que propositava aquelas considerações, seria o desnível entre as atuações dos dois grupos de forcados de tope nacional: os mais antigos de formação, limitaram-se a cumprir as regas necessárias para aproveitarem a bonomia comportamental dos touros; os segundos, na frente do que se apresentava fácil, complicaram tudo!

Enfim, terei infelizmente muitas mais oportunidades para me debruçar sobre esse tema.

 

 Agora, vamos à música…

 É assim mesmo, a festa de touros em Portugal está prioritariamente tripartida em termos de regiões – sempre teve.

“A Banda de lá, a de cá… e as outras”, são aquelas onde se encontram as forças demográficas de maior expressividade em termos de afición nacional, além destas…        

O Alentejo e as partes mais chegadas ao famoso rio Tejo são as que formam de facto, as manchas de maior essência com sentido aritmético enquanto afición portuguesa, a par da faixa a Norte do mesmo rio, onde se inclui Lisboa, como quem diz, Estremadura e Ribatejo isto, estimando unicamente as superfícies mais efetivas e então, ainda temos as outras regiões, ou melhor, salpicos em regiões mais a Norte e menos animadas na sua expressividade.

Mas há mais bandas senão as referidas, como sendo as de característica musical!

É de bandas de música que este trabalho pretende abordar. Com todo o respeito que lhes devo, evidentemente.

As bandas, as tradicionais, as influentes e que dão vida aos recintos, alegram o público e transmitem ânimo aos artistas! Por bem do espetáculo.

Havia épocas que os aficionados não queriam perder as corridas de touros, nem as feiras a que aquelas estavam inseridas: comboios, camionetas de carreira, carros, carrinhas e carroças, cavalos, mulas e jumentos, era vê-los em infernal e transcendente movimento; os restaurantes esgotavam e os circos taurinos lotavam enfim, o ambiente era simplesmente diabólico!.. Havia vida.

Antigamente era assim, ia-se aos touros às outras terras com mais persistência, disponibilidade e com maior decisão, qual peregrinos. Logo, muito pelas manhãs, dava-se início às movimentações afim de melhor se desfrutar das amizades mais ou menos desencontradas. À noite, com a festa feita e após o são convívio, mais os abraços e debeladas as saudades mas, já sem a resplandecência da ida, todavia, na volta ficava a satisfação dos resultados adquiridos. O ambiente tornava-se sempre em coisa incorpórea, animadora de almas, de espiritual condição e de franca fraternidade.

O número de corridas era inferior às que hão hoje, é verdade mas, sem dúvida, a generosidade de entrega e paixão era de nível absolutamente superior ao atual!

Se calhar, também não seria conveniente haver hoje a realização de tantos espetáculos, atendendo à crise que por ora, infelizmente se atravessa! Será uma forma de masoquismo?! Daí o meu reparo!

Nos dias que atravessamos, vê-se facilmente fazer-se o mal e a caramunha?! Porém admitir-se isso, pedir-se desculpa enfim, reconhecer-se erros é que, ao que me parece, é coisa em extinção!

Deixando o passado, a festa dos nossos dias apresenta-se com estigma, com menos ilusão, mais deprimida, oprimida mas, com enormes carências no entanto, ainda há filarmónicas perfiladas a atravessarem as localidades em direção às praças de touro explanando alegria e a fazerem-se ouvir em uníssonos pases-doble até que, tomem o lugar nos recintos próprios para a função e, aprontando-se para após cada mostra dos lenços brancos pela parte dos diretores dos espetáculos disponibilizarem-se enfim, cumprirem com o que tão bem sabem fazer… darem-nos música!

Mas, também, para as cortesias, para as bandarilhas, para as mudanças de tércios, para os avisos, para saída dos touros, dos cabrestos, as voltas às arenas dos artistas, o recolher das rezes, sempre toca o clarim! Por vezes com sons redobrados, quanto mais continuados mais simpáticos – o clarim sempre toca!

Ao iniciarem-se as cortesias com aqueles sonantes e artísticos sons, por vezes acompanhado com timbales, segue-se o espetáculo e, logo a audição das características, castiças e distintas partituras musicais…

Sai o negro pela porta dos anseios e, o público fervilha emocionado!

O desenvolvimento da lide tem ritmo, intensidade e perante o luzimento das lantejoilas, arrojo, destreza e arte desenvolvida a alegria é embriagante, os olés misturam-se com os demais incitamentos, o touro e o toureiro cumprem e, a música faz-se ouvir de novo… há palmas a acompanhar o compasso… e quando se ouvem as de tango?! Mas, isso é vinho doutro casco!

Todo o espetáculo decorre em conformidade com os desejos e anseios dos das bancadas.

Quanto deve o espetáculo de touros à música?! Meu Deus.

Toca enquanto as bandarilhas… toca a acompanhar faenas… toca às voltas às arenas. Também se ouve- «Ó marreta, manda tocar a música!.. Ó inteligente p’ra que serve a música?!... Então senhor diretor, isto não merece música?!.. Ó inteligente, dá vinho aos músicos c’a não eles não tocam?» - Sempre toca a música. Também se houve por vezes «Cala a boca urso, queres música trás o rádio de casa!»

Posto isto e apresentado o “Pensamento da Semana”, resta-me confessar aos queridos e fieis leitores em geral, o facto de gostar mais, considerar maior coerência e achar próprio para a função a utilização de cavalinhos musicais nos tauródromos e isto, por achar que algumas bandas andam a competir com outras dentre espetáculo, buscam protagonismo o que, me leva a estimar haver alguma desconsideração ao labor dos artistas de turno… Cada um às suas! Todavia, reconheço o real nível e validade daquelas sociedades culturais.

Também é legítimo que seja dito, nunca ter havido mal ao mundo o facto de pretender-se demonstrar classe e superior nível nas responsabilidades a que cada qual se obriga e assim, é natural que o mal real venha doutro lado e não, propriamente da música.

Na grande verdade, ninguém venha reclamar e apontar o dedo às boas bandas de música ou, aos comichosos, incoerentes, incompatíveis e fanáticos defensores dos animais por alguma nocividade ou falta de público nas praças de touros! Isso, somente são contratempos que, com coerência se contornam, são causas que se torneiam bem com formas de conhecimento, com dedicação – o nosso apaixonado espetáculo, o castiço, o tradicional, o histórico, o evento de massas mais português entre quantos existem até poderá definhar um dia mas, a acontecer, só poderá ser por implosão - de dentro para fora! Como dizem os espanhóis «Por aquéllos ratones no podremos sofrir nosotros, por estos si!»

 

(Artigo escrito em cumprimento com as regras do Novo Acordo Ortográfico).

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

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