Domingo, 24 de Setembro de 2017
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Ricardo Chibanga "El Africano"-Parte 2

Nesse ano, o de 1962, também eu era muito jovem e pegava então...
19 de Janeiro de 2014 - 21:54h Pensamento por: - Fonte: Taurodromo.com - Visto: 1962
Ricardo Chibanga

 

(...) Nesse ano, o de 1962, também eu era muito jovem e pegava então, no que foi célebre “Grupo de Forcados Amadores Académicos de Santarém” infelizmente, há muitos anos extinto.

Era setembro e para a famosa e tradicional feira taurina da Nazaré estavam anunciadas duas corridas e um espetáculo de variedades para sábado, dia 8; sexta-feira, dia 14; sábado, dia 15 de Setembro, respetivamente. Na corrida da véspera atuou Pedro Louceiro, David Ribeiro Telles e na lide a pé, Manuel dos Santos e Diamantino Vizeu, tendo como forcados os Amadores de Lisboa que enfrentaram touros com ferro dos “Herdeiros Robertos de Salvaterra”. O meu Grupo atuou no sábado, pegando touros de Ernesto de Castro – se os atuais forcados, pensa haver touros complicados, eu digo: os forcados é que complicam os touros! Se hoje se benzem quando falam dos “Castros”, cumpririam penitenciosas maratonas de orações de joelhos em terra, só de verem os Castros daquelas épocas! - A cavalo, atuaram  Manuel  Conde e D. José Atayde e a pé, Manuel dos Santos e António dos Santos. Como resultado, eu peguei o primeiro touro, por felicidade, com uma extraordinária pega de caras.

Esta corrida foi inesperadamente televisionada- com conhecimento na véspera e, por curiosidade acrescento: O cabo do Grupo de Lisboa, Nuno Salvação Barreto ao saber desta ultimada resolução, ofereceu-se à “Empresa Pena & Silva” para pagar o curro de touros para nós, “Académicos de Santarém”, sermos desmontados do cartaz, em seu benefício, claro; creio, se bem me lembro, o curro de touros importar em 40.000$00. Mas não tivera sorte alguma, os espetáculos foram decorridos consoante o programa.

Nesta corrida eu abri praça e, não calculam os prezados leitores o gozo que me deu ao fazer uma extraordinária pega – mais comparado seria um orgasmo ideológico, quando dei duas voltas à arena agradecer com o mediático cavaleiro, Manuel Conde!

 Para a novilhada popular - era a categoria considerada – estavam anunciados: o amador, Luís Miguel da Veiga e outro (?), o Grupo de “Forcados Amadores do Ribatejo, capitaneado por Manuel da Cruz – um veterano do meu Grupo -, Manuel Rosa (de Lisboa) e José de Sousa dos (dos Riachos), confesso que não tenho qualquer ideia das sua atuações e, a pé, uma semana antes, assisti à garraiada entre barreiras com o cabo do meu Grupo, Rui Manuel e então, assistimos às atuações de dois desconhecidos jovens africanos, os quais tinham chegado ao Continente na quinta-feira anterior e sem trajes próprios para a função, atuarem então com camisas brancas e cintas vermelhas postas!

 O grande bandarilheiro profissional e saudoso Amigo, José Agostinho dos Santos também atuava no espetáculo e, ao meu lado, encostado igualmente à trincheira via o desenvolvimento da audaciosa parelha de jovens aprendizes a toureiros, ainda com modos, estilos e até princípios absolutamente rudimentares mas, descarados e a impressionar todos os presentes na lide de dois touros corridos absolutamente manhosos, postos de carne e de armações; aqueles projetos a artistas apresentaram-se bem irreverentes, espetaculares, valentes e intensos a deslumbrarem a quem lograra presenciar tais façanhas, dispensaram mesmo os bandarilheiros de serviço disponíveis. José Agostinho dos Santos ao meu lado impressionado, boquiaberto com o que constatava, sem falar e tirar os olhos do que via,apertava-me o braço chamando-me à desnecessária atenção – como poderia eu não ver semelhante fenómeno!

 Foi de escândalo, todos se impressionavam com o que viam: não houve ninguém que ficasse impávido, o deslumbramento era geral, havia destreza e facilidade nos três tércios, a irreverência e atrevimento com os capotes era momentoso, com as bandarilhas nada parecia crível, como seria possível com palitrones de palmo, entretanto e irreverentemente partidos na teia, Eles entravam e saíam da cara dos touros de qualquer maneira – ouvi alguém dizer que era sorte de principiantes?! A sorte destacava-se com o capote com obstinação, com a muleta com transcendência e, espetacular valentia no seu todo! Serviam-se aqueles rapazes com surpreendente e agradável atrevimento!

 Atentem-se queridos leitores e leitoras: o parelho desenvolveu as lides pela ordem natural mas, os dois mais pareciam um todo mesmo embora, bandarilhassem à vez… revezassem-se à vez… andassem no ar, no chão ou pendurados nos cornos à vez – como se de borracha fossem feitos todavia, sempre aparecia de imediato o outro ao quite, era impressionante o sentido de interajuda e de oportunidade! Cada um era a pronta defesa do outro, coisa de loucos que a afición portuguesa depressa soube reconhecer e tornar como peregrinação a cada uma das suas atuações!

 Um mês e pouco depois, pelo feriado “Todos Santos” no Cartaxo, o meu Grupo também ali atuou e, eu voltei a pegar de caras com absoluta eficácia – não tenho muito na ideia dos artistas atuantes mas, sei que eram touros com a divisa de “Conde de Atalaia”. 

Os rapazes no dia seguinte em novo espetáculo de variedades repetiram a mesma dose de desaforo com mais touros corridos, claro! O público ficou completamente enamorado pelos dois novatos pretendentes a toureiros… que de arte ainda nada tinham!

Por curiosidade, recordo que nesse espetáculo de variedades o público desentendeu-se gravemente com os forcados mais novos de iniciação, era o “Grupo dos Futuros Académicos de Santarém”, o que resultou em algo mais parecido com gladiadores, em qualquer circo romano! Descontando o exagero, claro. Eu e outros forcados da primeira linha do Grupo estávamos nas bancas e claro, tivemos que saltar para a arena para defendermos os nossos companheiros!

Adeus Moçambique!..

Passaram os três meses, meteu-se o defeso com o ano de 1963 e os jovens ficaram no Continente, os mentores responsáveis pelos futuros toureiros resolveram por lhes dar escola - já não me recordo bem mas, parece-me que ainda entraram os dois na “Escola de Toureio de Torres Novas” de Mário Leão, embora já tivesse definido que seria o Ricardo o escolhido para avançar até ao doutoramento, em detrimento do Mabunga, que assim ficaria para subalterno.

Seria impraticável apostarem nos dois alunos com o fim de seguirem o mesmo destino, era praticamente impossível!

Os espetáculos com a parelha continuara a dar frutos, as praças esgotavam, não havia ninguém que não quisesse presenciar as tão badaladas fenomenalidades!

Todavia, nesta altura do campeonato, já só tomei conhecimentos por meio da leitura, de ouvir o boca-a-boca enfim, inteirava-me pelos naturais canais ligados à tauromaquia – a minha presença era em Angola.

Já na naquela então, província portuguesa, avancei para o Norte, na região dos Dembos; nada poderia ter sido pior sido para a minha unidade, o “Batalhão de Caçadores Especiais 532” (Panteras Negras)!

No entanto, antes daquela colocação, mal assentei os pés na capitai da província africana e já estavam-me a convidar para pegar com o “Grupo de Forcados Amadores de Luanda”, era então o cabo, Fernando Castelo Branco – souberam da minha mobilização pelos jornais e revistas Nacionais, que também recebiam… E, por ali, fiz muitos disparates também!

Quando regressei, em Fevereiro de 1966, fui convidado para chefiar o “Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca” e continuei a pegar e, naturalmente a assistir ao extraordinário desenvolvimento, Já a solo, do já famoso “El Africano”!

Inesperadamente, fora eu convidado para atuar nas tradicionais “Sanjoaninas” em Angra do Heroísmo, nos Açores e, o sucesso foi estrondoso. E depressa veio outro convite, desta feita, para igualmente exercer ação artística em Lourenço Marques, chegou-me em simultâneo com o de Macau e, eu preferi aceitar o asiático pela frente e, só depois fui a Moçambique, curiosamente por tanto ter gostado, fixei residência e, com muita pena minha, somente até Setembro de 1974! Por certo ficaria por lá muitos mais anos.

Os sucessos da figura referenciada iam-se acumulando e a aprendizagem seguia os melhores efeitos porém, já na “Escola de Toureio da Golegã” com o Mestre Patrício Cecílio.

Agora havia que encaminhar, cuidar e proteger o novo pretendente a matador de touros, havia um caminho longo pela frente pois, faltava muita técnica ainda àquele esforçado e voluntarioso aluno até à almejada pretensão!

O de Mafalala, logrou chegar aonde pretendia: foi um nato Matador de touros, tinha carisma, adrenalina quanto baste e ademais, crer para o ser, até chegar à arte – chegou.

El Africano”, como Espanha o reconheceu nas imensas corridas lidadas numa enormidade de épocas, infelizmente foi muito castigado pelas hastes dos touros quiçá, devido à sua notória irreverência e descarada valentia! Estou-me a recordar de uma célebre e grave cornada, à qual assisti em S. Sebastião de los Reis, creio que em julho, ou mesmo Agosto de 1966, já não tenho bem a certeza devido à distância do tempo!

Ricardo Chibanga fez o doutoramento em Sevilha às mãos de António Bienvenida, com o testemunho de Rafael Torres a 15 de agosto de 1971, em boa hora, pois cortou uma orelha!

Em Lourenço Marques também atuei com o diestro “El Africano”, felizmente em corrida em que enfrentei um touro já bem conhecedor daqueles meandros e, com o necessário valor a impressionar a assistência. Julgo que ainda fiz outra corrida em que Chibanga toureou em África.

Este monstro do toureio mundial atuou por todo o lado onde havia praças de touros portuguesas, em Espanha até o Picasso se rendeu, abraçando-o e, França entregou-se perante o seu valor mesmo, sem os incitamentos da mitológica Valquíria! O nosso homenageado em referência foi aos Açores, a Angola, a Moçambique, às américas que do mesmo modo viram-no com enorme entusiasmo, como nos Estados Unidos e Canadá e, do outro lado do mundo, a Indonésia e Macau maravilharam-se da mesma maneira!

Será justo referir publicamente que os responsáveis diretos pelo bem-sucedido propósito de levar desde o seu início Ricardo Chibanga a toureiro, deve-se a Júlio Pinheiro e sua família, Alfredo Ovelha e Manuel dos Santos… Ficam as dúvidas esclarecidas.

O Bairro de Mafala já leva quiçá, há uma mão cheia de anos, ou mais, um prestigiado Festival de Música, no qual foi estreado um filme centrado na figura do primeiro Matador de Touros negro africano da história, da autoria do realizador alemão, Thomas Bherens.

Terá sido a carreira do Matador de touros Ricardo Chibanga absolutamente digna, por seu empenho, por felicidade e por Deus.

 A popularidade de Chibanga superou as mais desconformadas espectativas, o seu nome batizou negros e brancos, cães, gatos, papagaios e até cavalos; há até um caricato episódio com o mestre David Ribeiro Telles sobre o seu nome ter sido atribuído a um equídeo mas, isso agora não vem a propósito. Quem não ouviu, quando a caminhar pelas ruas de quaisquer terras, o chamamento de Chibanga quer a pessoas, quer a animais! Só por isto, se atesta a veracidade do facto.

 Como Eusébio da Silva Ferreira, o seu conterrâneo Ricardo Chibanga e profundo Amigo, também ficou por cá e por felicidade fez vida, impressionou os demais e agora, sem pressas e humildemente, espera como eu pela vez, como desafortunadamente fez ontem o Eusébio ao sair de cena e bater a porta… até que todos nos encontremos um dia em completa paz das almas para todo o sempre. Aos entes queridos do Rei do futebol internacional e nosso Amigo comum, cá ficamos chorando-o – resigna-te Ricardo.

 Eu como, antigo forcado e orientador, crítico taurino e irrepreensivelmente assumido apaixonado pela festa na sua generalidade, te agradeço para todo o sempre, meu irmão.

 

(Vila Franca de Xira 6 de janeiro de 2014)

 

(Esta prosa está escrita, seguindo as regras do novo acordo ortográfico).

 

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